terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Homem chega na América


Povoamento do continente e primeiras civilizações
Fernando Luis de Carvalho, obra "A Pré-história Sergipana"

A procedência dos primeiros habitantes do Continente e o momento em que se deu a imigração têm sido respondidos, neste século, a partir de hipóteses formuladas por inúmeros cientistas, dentre os quais historiadores, arqueólogos, biólogos e antropólogos.

Autoctonismo
Condição ou caráter de autóctone (que é natural da região onde habita ou se encontra - povo autóctone, flora autóctone -; aborígene; indígena)
Ao final do século XIX e o início do XX, foi amplamente discutida a hipótese de autoctonismo baseada em vestígios humanos erroneamente atribuídos a hominídeos anteriores ao homo sapiens e descobertos em camadas geológicas que, por equívoco, foram considerados mais antigas do que eram na realidade. A ausência de grandes macacos fósseis e de tipos humanos mais primitivos que o homo sapiens nos terraços terciários e quaternários da América não permite considerar a possibilidade de uma evolução in situ.

No início do século XX, autores aceitaram a homogeneidade biológica dos ameríndios, generalizando-se a crença de que as populações do novo mundo foram constituídas exclusivamente por ancestrais asiáticos e de que eles chegaram ao continente pelo estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, em épocas distintas, iniciando-se a imigração há 35.000 anos. Entre 35 e 12 mil anos do presente, a glaciação Wisconsin teria feito, por intervalos, o mar descer a uns 50 metros abaixo do nível atual. Por essa hipótese, as variações morfológicas e culturais observadas entre os americanos contemporâneos se explicam, em parte, como resultado de distintos graus de evolução biológica de cada uma das imigrações no transcurso dos milênios e, em parte, pela influência que o meio ambiente exerceu
em distintas regiões onde se estabeleceram.


Principais rotas de migração postuladas para o povoamento da América, segundo Paul Rivet.
Fonte: José Camargo Mendes


O Estreito de Bering tem menos de 100km de largura e é hoje facilmente atravessado pelos esquimós, utilizando barcos de peles. Os outros estudiosos, pelo contrário, opinam que, desde tempos remotos, convivem na América grupos humanos de várias procedências. São os sustentadores da teoria pluriracial.

A população indígena da América pré-colombiana resultou de diversas imigrações a partir de tipos raciais distintos: algumas efetuadas pelo Estreito de Bering (mongóis e esquimós), outras, através do Oceano Pacífico e da Antártida (australiano e malaio-polinésios). A sequência de ilhas e arquipélagos no Pacífico
e entre a Tasmânia e a terra do fogo teriam sido utilizados como caminho natural para o ingresso do homem pré-histórico na América do Sul. 

Carlos Ameghino, paleontólogo e explorador argentino - Defendeu ter a humanidade sido originada na região meridional da América. Na Argentina teria surgido o primeiro ser adaptado à posição vertical, o Tetraprothomo.
Ales Hrdlicka (líder da escola americana de antropologia) - As populações americanas teriam migrado pelo estreito de Bering.
Paul Rivet (um dos estudiosos do povoamento da América) - Baseado em semelhanças etnográficas, linguísticas e biológicas, admitem a migração de asiáticos (Bering), melanésios (Pacífico) e australianos (ilhas entre a Austrália, a Antártida e a América do Sul).

A partir das teorias propostas, alguns pontos convergentes são aceitos na atualidade.

A Antropologia Física tem contribuído para o entendimento das migrações pré-históricas na América do Sul (Salzano, 1990), a partir de uma rota ao longo da Costa do Pacífico e outra para o norte da região amazônica. Ward (1975) sugere três direcionamentos: a costa do Pacífico, a costa Atlântica e o centro do Continente (planalto central e o chaco). 

As Primeiras Culturas

· A descoberta de sítios arqueológicos nos planaltos norte-americanos, onde foram encontradas pontas de lança cuidadosamente lascadas em ambos os lados, com caneluras associadas a ossos de megafauna (mamute e bisonte). Suas datações entre 11.200 a 10.000 A.P. Trata-se da Cultura Clovis.
· A identificação, em mais de vinte sítios, de uma outra cultura, a Folsom (10.900 a 10.200 AP).

Há poucas informações sobre o modo de vida das comunidades Clovis e Folsom. Apenas ossos de animais, pontas e fogueiras superficiais.


Técnica dos caçadores-coletores
americanos nas pontas Clovis e
Folsom
Nas ultimas décadas, em inúmeros sítios arqueológicos na América, datações anteriores às culturas Clovis e Folsom estão sendo propostas. Têm-se obtido datações consistentes pré-Clovis em carvão e ossos de animais associados a pedras lascadas. Questiona-se a validade de tais datações, tendo em vista que o fenômeno se forma também naturalmente, e os povos antigos poderiam ter escavado ossos já fossilizados, numa época posterior. As datações pré-Clovis raramente estão relacionadas a ossos humanos associados a restos indiscutivelmente culturais.

No México, Guatemala, Panamá, Equador, Colômbia, Venezuela, Peru, Uruguai, Chile, Argentina e Brasil, como já visto, há sítios com datações pré-Clovis. Portanto, na América do Sul há sítios arqueológicos com datações anteriores a doze mil anos. Fora do Brasil, há, no Peru, o abrigo de Pikimachay, com datações de até vinte mil anos. No Chile, em Monte Verde (carvão, madeira e ossos de mastodonte), datação de 12.500 anos e uma discutida datação de 33.000 anos. 

No entanto, o sitio mais polêmico está no Brasil, em Pedra Furada, no Piauí, com datação de 50 mil anos. Se essas datações estiverem corretas, a presença humana na América recuará a algumas dezenas de milhares de anos antes das datas atualmente aceitas No Chile, o famoso sítio do riacho Monte Verde apresenta
dois fragmentos bifacias de pontas foliáceas e seis datações entre 13.500 e 11.800 anos atrás. A existência de várias tradições culturais sul-americanas contemporâneas mas distintas da tradição CLOVIS não corrobora a hipótese de que os caçadores de animais de grande porte, norte-americanos, fossem os ancestrais dos sul-americanos. 

Agricultura: uma revolução

Desde que chegou as Américas, o homem se espalhou muito lentamente por todo o território continental, ocupando-o por completo. Por muitos milhares de anos os grupos humanos eram nômades e viviam exclusivamente da caça e da coleta de frutas, raízes e sementes. Somente após o derretimento das geleiras (fim da Era Glacial) e a extinção dos grandes mamíferos (mamutes, bisões, mastodontes, etc.), os grupos humanos passaram a buscar na vegetação sua principal fonte de alimento.

A agricultura começou a ser praticada nas Américas entre 7 mil e 5 mil anos atrás, o que garantiu para os povos da época maior quantidade de alimento, maior expectativa de vida, aumento populacional, sedentarização e maior disponibilidade de tempo. Provavelmente, isso levou a uma observação mais cuidadosa da natureza, possibilitando uma melhor compreensão do meio ambiente, o que foi essencial para o desenvolvimento da pecuária, da cerâmica, da tecelagem, da sistematização de uma religiosidade.

Por volta do terceiro milênio antes de Cristo surgiram as primeiras aldeias agrícolas da América. Os principais vegetais cultivados eram o milho, a batata, o feijão e a abóbora. Em pouco mais de mil anos a técnica agrícola se expandiu por várias regiões do continente, embora não se saiba ainda como isso ocorreu. De qualquer forma, a partir daí teriam se originado os centros cerimoniais, que os arqueólogos consideram o inicio das civilizações americanas.

Religião, comércio e administração

Várias aldeias agrícolas passaram a se reunir em torno de centros religiosos, comerciais e administrativos, chamados de centros cerimoniais. Cada um deles contava com uma elite de sacerdotes que o administrava e necessitava do trabalho de milhares de homens para produzir alimento, defender e trabalhar nas construções monumentais. Apesar de as aldeias manterem sua autonomia, os centros cerimoniais eram lugares que reuniam os povos de diversas regiões, para ali tratarem de assuntos comuns.

Por isso, fala-se da formação de uma cultura mais ampla a partir desses centros, dos quais os mais famosos foram:

CENTRO CERIMONIALPOVOPERÍODOREGIÃO
San Lorenzo, La Venta, Trez ZapotesOlmecas1.500 a. C. - 100 a. C.Golfo do México
CaralPovos andinos, não se sabe exatamente quais2.600 a. C. - 1.800 a. C.Norte de Lima (Peru)
Chavin de HuantarPovos andinos, não se sabe exatamente quais são900 a. C. - 200 a. C.Margens do rio Maranhão (peru)
Apesar de se localizarem em regiões muito distantes, tais centros tinham características comuns como a existência de uma elite de sacerdotes que controlava a administração; uma religião ligada à natureza, na qual o sacerdote (xamã) era associado ao jaguar (ou onça pintada - cultuada em toda a América); um planejamento arquitetônico impressionante, que contava com amplas avenidas e praças públicas organizadas a partir dos pontos cardeais; construção de obras monumentais como pirâmides (a pirâmide de Caral, no Peru, é uma das maiores do mundo), templos, estelas, esculturas com mais de dois metros de altura.

Todas essas características apontam para existência de uma sociedade rigidamente organizada, que podia dispor de mão-de-obra para o funcionamento desses centros cerimoniais: agricultores, ceramistas, tecelões, escultores, militares e os "cientistas" da época, por que não seria possível construir cidades tão complexas sem conhecimento matemático, geográfico, geológico, arquitetônico.

Com o passar do tempo, esses centros cerimoniais se tornaram cidades que, devido a uma grande importância, mesmo depois de sua decadência, continuaram a influenciar os povos da Mesoamérica e dos Andes. Muitas das características dessas cidades foram encontradas em centros urbanos posteriores: Teotihuacan (México), cidades Zapotecas (México), Chan-Chan (Peru), Tiwanaco (Bolívia), e também nas grandes civilizações da América: os Maias (Mesoamérica), os Astecas (Mesoamérica) e os Incas (Peru).

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